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Entre a autoridade e o serviço:
reflexão advinda dos ensinamentos de Cristo
Autoridades e servos são separados pela função que cada um ocupa na sociedade. Na doutrina cristã esta segregação não deveria acontecer, pois Jesus nos ensina que a verdadeira autoridade nos leva ao serviço a Deus e aos irmãos. Sem a visão cristã toda e qualquer autoridade é vazia de significado e de função social. Por isso, me refiro a esse tipo de autoridade como "autoridade mundana".
Infelizmente, em nossa sociedade, ainda impera a antiga e tradicional separação entre autoridades e povo. É claro que não podemos generalizar, mas esta é uma realidade que não se pode negar. E não falo apenas das autoridades constituídas legalmente, mas de pessoas que ao assumir simples funções dentro de determinadas instituições, já querem ser tratadas como tais.
Elas esquecem que a autoridade é sempre uma forma de ser e agir melhor para o bem comum, como fez o próprio Mestre Jesus Cristo. Geralmente, as "autoridades mundanas" necessitam e querem ser aplaudidas, reconhecidas, bajuladas e servidas pelas pessoas. Elas não podem ser tratadas da mesma forma que o povo, pois é na diferença de tratamento que elas se sentem privilegiadas por serem "autoridades". Seus nomes têm que ser citados onde quer que estejam, caso contrário, isso será visto como falta de etiqueta e de consideração. O que vale para os outros viram exceções para elas. Afinal, ser uma autoridade não é para todos, pois o comum não traz status social, não traz diferenças, não traz marcas e benefícios que o cargo lhe confere.
Na verdade, o fundamento da verdadeira autoridade não é a pessoa em si, mas o cargo que ela ocupa. Então, alguns criam o personalismo autoritário. Isso acontece quando as pessoas perdem a noção de que sua autoridade se deve ao fato de ocupar um cargo de serviço à sociedade, o que na maioria das vezes é um cargo temporário, ou seja, tem um tempo determinado, e equivocadamente, elas passam a acreditar que são autoridades por serem "pessoas especiais". Em relação ao ser pessoa não existe esta "coisa" de autoridade, pois todos são iguais perante a lei. Mas ser igual é a única coisa que "autoridades mundanas" não querem, pois assim elas não se destacam, não aparecem, não são evidenciadas. Quando fazem aquilo que são próprias de suas obrigações querem reconhecimentos, placas de homenagens e aplausos por onde passam. E para quem não transformou a sua autoridade em serviço, como nos ensina Jesus Cristo, isso faz uma falta danada...
Os servos são aqueles que diferentemente das autoridades, seus trabalhos não aparecem, mas que sem eles a sociedade não pode ser construída ou mantida. Os servos são tratados sempre igualmente, não há qualquer distinção entre eles, mesmo que a função de cada um não seja a mesma, pois compreendem que fazem parte de um todo e que todos contribuem da mesma forma. Quase nunca são aplaudidos ou reconhecidos pelos seus trabalhos diários e quase sempre vivem à margem da sociedade elitizada pelo poder. Vivem no anonimato e na simplicidade de quem faz do seu serviço um testemunho de amor a Deus e aos irmãos.
Na época de Jesus também era assim. Havia várias autoridades, todas com as mesmas necessidades: segregar-se do povo, ser reconhecidas pelas pessoas e ter tratamentos diferenciados nos mais diversos ambientes. Naquele tempo havia políticos, escribas, doutores da lei, fariseus, sacerdotes, juízes e várias outras autoridades, sendo que todas elas viam no Cristo uma ameaça ao seu status social e seu modo de vida.
Para essas autoridades, os dons das pessoas eram sempre vistos com indiferença e ameaça, por isso, tratavam logo de descartar, eliminar, inventar mentiras, criar factóides e expulsar as pessoas do convívio social e dos trabalhos religiosos. Tudo isso porque elas poderiam fazer sombras para o poder que as autoridades exerciam. Lembre-se que o sinônimo de autoridade é poder, enquanto que o sinônimo de servo é doação. Jesus foi crucificado exatamente através dessa estratégia diabólica de eliminar as pessoas que são bem vistas pelo povo, que colocam seus dons a serviço da comunidade e do Reino de Deus, mas que não tem status de autoridade.
A ação do jovem nazareno era diferente. Jesus valorizava os pequenos, as viúvas pobres, os pescadores, os analfabetos, as prostitutas, os leprosos, os pobres, os marginalizados e os doentes de seu tempo. Via nos servos a grande metáfora do discipulado do Reino dos Céus. Tanto que Ele mesmo nos diz que somos servos de Deus. E que servimos ao Senhor quando fazemos o bem aos mais pequeninos de seu Reino.
Nós - servos e servas de Deus, agentes de pastorais, associações, movimentos, membros de comunidades cristãs – precisamos assumir a nossa identidade de servos, resgatarmos o orgulho de nossa condição de povo, trabalhar sem querer nada em troca. Precisamos nos alegrar por não sermos reconhecidos por aquilo que fazemos, mas sim, amados por Deus por aquilo que somos. Não precisamos ser reconhecidos e homenageados para sabermos do nosso valor. Bastar olhar para quem constrói e mantém de pé Igreja de Jesus Cristo no dia a dia. Os verdadeiros servos não precisam se separar do povo, pelo contrário, é na vivência com os irmãos e no se fazer comunidade que descobrem a sua verdadeira vocação e sentido espiritual.
Existe uma coisa que uma "autoridade mundana" jamais conseguirá ter: a alegria de servir por amor a Deus e aos irmãos, numa verdadeira generosidade de coração. Elas até cumprem suas obrigações, mas vivem preocupadas em receber dos próprios homens o retorno daquilo que fizeram ou fazem, enquanto que os servos nada esperam, a não ser a silenciosa recompensa que vem das mãos de Deus.
Aprendi, na Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus, nos meus onze anos de formação religiosa, que devemos ir ao povo para estar com o povo. Esta é a mística dos dehonianos que entenderam que a autoridade nada mais é do que servir pelo qual Jesus doou a sua vida no alto de uma cruz...
Prof. Dieikson de Carvalho
Pastoral da Comunicação